O Setor Elétrico Brasileiro é como um alcoólatra que desperta com uma ressaca dolorosa
Por Glenn Switkes
Diretor da International Rivers
A energia barata da Itaipu, maior “presente” dos governos militares para o setor, acabou. O custo da hidrelétrica de Belo Monte, prevista para ser construída no rio Xingu, no Pará – e considerada o “filé” das barragens que estão sendo planejadas pelo setor elétrico na Amazônia - , quadruplicou, saltando de R$7,5 bilhões para R$30 bilhões. Os novos números colocam a viabilidade econômica do projeto em xeque.
Mas não é apenas em relação a Belo Monte que os “barrageiros” enfrentam um cenário incerto: outros empreendimentos preconizam hidrelétricas caras e ambientalmente devastadoras para a conservação da Amazônia. Mesmo assim, estes projetos são as grandes apostas do governo e do setor energético para subsidiar o crescimento econômico do país a altos custos socioambientais.
Os psicólogos dizem que a única maneira de tratar vícios é assumir a dependência. Mas isso os czares de energia no Brasil estão longe de fazer. As duzentas mil famílias brasileiras que foram arrancadas das beiras dos rios pela construção de empreendimentos hidrelétricos, sem que a sociedade brasileira realmente se importasse, tornam fácil para os planejadores de energia afirmar que “não podemos deixar 500 índios negar energia para 200 milhões de brasileiros”, referindo-se aos supostos prejudicados e beneficiados por Belo Monte. Os danos ambientais causados pelas hidrelétricas de Balbina e Tucuruí (construídas na Amazônia na década de setenta), que inundaram mais de 7 mil km2 de florestas, são considerados “erros do passado” e o Ministro de Minas e Energia informa aos investidores em Nova Iorque que as barragens no rio Madeira têm impacto ambiental “zero”.
O próprio presidente Lula disse recentemente numa reunião com movimentos sociais sobre Belo Monte que “o setor elétrico foi irresponsável e os atingidos por barragens merecem compensação pelos danos que sofreram”. Aparentemente, este reconhecimento não foi ainda assimilado pelos responsáveis pela política energética do país. Fontes renováveis não-convencionais, como energia eólica, biomassa, e solar, além da melhor eficiência energética das hidrelétricas existentes são fundamentais na transição mundial para um futuro energético sustentável – mas, no Brasil, estes caminhos são desprezados como obstáculos aos investimentos em novas e gigantescas hidrelétricas como Belo Monte, que interessam sobretudo às grandes empreiteiras.
O descaminho é tamanho que o setor elétrico pretende construir hidrelétricas dentro de parques nacionais e terras indígenas, fazendo com que povos indígenas entreguem suas terras mais férteis para abastecer mineradores. A boa notícia é que o tratamento não precisa doer tanto. Através de um diálogo aberto com especialistas independentes sobre energia e desenvolvimento, com os movimentos sociais, ambientalistas e indígenas, talvez o setor possa despertar. É só ter vontade política e bom senso.
Agosto de 2009.
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