
Vou começar pedindo licença para fazer a leitura de um parágrafo de um dos primeiros documentos elaborados pela APEDEMA. Pela contextualização, imagino que deva ser uma espécie de carta de princípios, escrita no começo dos anos noventa, momento da fundação da APEDEMA, já que está sem a data, mas vem assinado pela coordenação provisória. O parágrafo inicial diz o seguinte:
“Não é nenhuma novidade dizer que o RS tem graves problemas ecológicos, como nossas matas nativas, que representavam 40% da cobertura vegetal do Estado e hoje estão reduzidas a cerca de 2%. Essas matas foram derrubadas para a implantação de grandes monoculturas para exportação que fazem do nosso Estado, um dos maiores consumidores de agrotóxicos e fertilizantes químicos do País, além de contribuir para a destruição de milhares de hectares de solos, assoreamento de rios e expulsão de centenas de milhares de pessoas do campo, que vieram se concentrar nos cinturões de miséria das grandes cidades, ou fazem parte da grande legião de camponeses do Estado.”
Dando prosseguimento, destaquei alguns elementos desta análise, que fazem as seguintes referências:
1 – posição crítica ao “modelo industrial do Estado”, cuja lógica é a de transferir ao “Terceiro Mundo, as indústrias sujas”, citando como exemplo a indústria coureiro-calçadista, o Pólo Petroquímico, o Pólo Carbo-Químico de Rio Grande, as grandes indústrias de celulose, como a Rio Cell, entre outros;
2 – o descaso com as Unidades de Conservação do Estado;
3 – o sucateamento dos órgãos ambientais.
E continua dando outros exemplos, debitando esta degradação ao “modelo civilizatório suicida” para, em seguida, fazer uma espécie de autocrítica, citando a desorganização do Movimento, como sendo um dos fatores que contribuem para a perpetuação deste estado de coisas.
Por que eu parti desta referência histórica?
1 – para mostrar exatamente a coincidência da atuação dos ambientalistas gaúchos, nos primórdios da APEDEMA, com a realidade atual;
2 – mostrar o papel imprescindível do Movimento Organizado;
3 – da mesma forma, mostrar a necessidade de fortalecimento do Movimento Ecológico Gaúcho (MEG), objetivo maior do nosso Encontro neste momento, cujo produto final será apontar os rumos do MEG para 2008.
Seguramente esta perspectiva não partirá do marco zero, mas será buscada na análise histórica da atuação do Movimento, desde o seu I Encontro Estadual nos idos de 1984, em Santa Maria, quando surgiu coletivamente a idéia de criação de uma Federação “para agilizar os trabalhos dos ecologistas gaúchos”. Esta idéia tomou forma no Encontro Temático de Novo Hamburgo, em 8 de Dezembro de 1990, com a criação da APEDEMA/RS, cuja finalidade é articular as Entidades ecologistas do RS.
De lá para cá, muitos Encontros Estaduais aconteceram, em vários municípios do interior do Estado, bem como a realização dos Encontros Temáticos da APEDEMA, além de suas Assembléias Anuais. Dentre os diversos Encontros Estaduais, destacamos o X EEEE, em Caxias do Sul no ano de 1989, momento em que foram criados os famosos Critérios de Caxias. Critérios estes que passaram a balizar a definição das entidades que deveriam ser consideradas ambientalistas.
Durante este percurso as lutas foram incessantes, abrangendo os mais diversos aspectos da realidade sócio-ambiental, passando pelas questões conceituais e de representatividade do Movimento; o seu papel na questão da sustentabilidade do modelo de desenvolvimento e por que não, da sua própria sustentabilidade - como foi o caso da tese-guia do XXVIII EEEE, ampliando cada vez mais o seu campo de atuação e as suas alianças, estando hoje afinado com as lutas sociais por uma vida melhor.
Como se viu no início desta exposição, a crise econômica e socioambiental do Rio Grande do Sul se agigantou e está exigindo do Movimento Ambientalista novas formas de organização, bem como uma discussão de novas estratégias de atuação a partir da sua prática histórica.
Sem abrir mão de questões de princípios e, considerando a dinâmica da realidade social, alguns parâmetros e conceitos merecem uma nova reflexão de nossa parte. Afinal, como sabemos a questão ambiental já não é mais monopólio do Movimento ambientalista - o que é muito bom, aliás. O caos planetário está forçando uma tomada de consciência por parte da sociedade, não tão ágil quanto a destruição provocada pela ganância do grande capital, mas ganhando diversos setores da sociedade. O papel dos ambientalistas é ampliar este processo de conscientização, mostrando que o futuro já começou e, portanto, medidas concretas e urgentes são uma questão de sobrevivência.
Se de um lado o Rio Grande do Sul é marcado pela influência que sofreu com a chamada “Revolução Verde”, por outro tem a marca do pioneirismo em defesa do meio ambiente, o que só nos traz orgulho. Mas isto não é suficiente sem uma atuação direcionada a toda a população, mostrando que o exercício da cidadania passa também pela defesa dos nossos recursos naturais, hoje cada vez mais entregues às grandes corporações transnacionais.
Quem sabe esteja na hora de reeditar o grito de Sepé Tiarajú e dizer que “esta terra tem dono!”
Maria da Conceição Carrion
Representante do Núcleo Amigos da Terra/Brasil
na Coordenação da APEDEMA e integrante
da comissão organizadora do XXVII EEEE