|
Energia,
sustentabilidade e democracia
Um
terço da população mundial vive
hoje sem acesso à energia, um serviço
essencial para o desenvolvimento da humanidade e para
uma vida com dignidade. No Brasil, são cerca
de 20 milhões de pessoas ainda sem acesso à
energia elétrica.
A energia traz, além da iluminação
artificial, a possibilidade de conservação
de alimentos, de aquecimento da água e climatização
dos ambientes, de transporte, de comunicação
e, através destes benefícios, a produtividade,
a inserção social e econômica e
a soberania das sociedades.
Entretanto, as fontes e formas tradicionais de produção
de energia que possibilitam o acesso a estes benefícios
são muitas vezes causa de degradação
ambiental e impactos sociais que podem, inclusive, privar
parte da população do acesso à
terra, à água e a um ambiente saudável.
As grandes centrais hidrelétricas, por exemplo,
já causaram o deslocamento forçado de
mais de um milhão de pessoas somente no Brasil.
Por outro lado a produção mundial de energia
e os sistemas de transportes baseados no usos dos combustíveis
fósseis, como o petróleo o gás
e o carvão, constituem as maiores fontes de aumento
antrópico das concentrações de
gases de efeito estufa na atmosfera, e que já
ameaça o equilíbrio ecológico do
planeta.
A energia nuclear é tão cara, os riscos
de acidentes catastróficos já bastante
conhecidos. E é fatal a permanência no
ambiente de resíduos radioativos por milhares
de anos, que a torna uma opção totalmente
descartável.
Como conciliar portanto, um visão de mundo com
maior eqüidade entre os povos e sociedades, aí
incluída a meta de universalização
do acesso a energia a todos os homens e mulheres, com
a preservação do ambiente natural e da
diversidade cultural?
É prioritário atacar o desperdício
e o uso desrespeitoso dos bens que a natureza oferece.
Assim, é necessário o estabelecimento
de padrões de produção e consumo
sustentáveis à vida na Terra, de modo
a promover maior justiça social e ambiental numa
sociedade desigual em que hoje 20% da população
consome 80% dos recursos, como a energia.
Sistemas de geração, transmissão,
distribuição e uso de energia podem devem
tornar-se mais eficientes, através de medidas
tecnológicas, impulsionadas também por
políticas públicas claras, forte e eficazes.
Mas não apenas as novas tecnologias, como os
conhecimentos tradicionais, podem ser aplicados na busca
de soluções para a produção
de energia e combustíveis a partir de fontes
renováveis e menos poluentes, de forma a reverter
a tendência de aquecimento global do planeta.
Estas fontes alternativas, como a biomassa a partir
de resíduos agrícolas (bagaço da
cana, cascas de arroz, serragem) e óleos vegetais
(de soja, o dendê, mamona, etc), a energia solar,
a energia eólica, e a energia produzida por micro
e pequenas centrais hidrelétricas, a energia
das ondas e marés, a energia geotérmica,
apresentam um potencial enorme para o suprimento global
de energia. Como vantagem, podem ser aproveitadas de
forma descentralizada, conforme as potencialidades e
particularidades de cada região e de acordo com
as necessidades e capacidades das comunidades.
O envolvimento das comunidades na discussão,
no planejamento e na gestão democrática
dos recursos energéticos é chave para
a sua soberania e para a sustentabilidade, e uma opção
de resistência aos modelos centralizadores de
recursos e poder que impõe aos povos altos custos
econômicos, ambientais e sociais em troca do acesso
a este bem de interesse comum que é a energia
e que, portanto, deveria ser um direito de todo o cidadão,
assim como direito a uma vida digna num ambiente saudável.
Lúcia Schild Ortiz
Coordenadora Geral
Núcleo Amigos da Terra / Brasil
|