Ativistas protestam nos consulados dos EUA em SP e RJ

Ativistas protestam nos consulados dos EUA em SP e RJ
Manifestantes cobraram do governo de George W. Bush a adesão ao acordo. Apesar da ausência norte-americana, os ativistas, ligados a movimentos sociais e a ONGs ambientalistas, celebraram a conquista cantando “Apesar de você”, música de Chico Buarque.

Bia Barbosa, para a Agência Carta Maior*

São Paulo e Rio de Janeiro – A entrada em vigor do Protocolo de Quioto nesta quarta-feira (16), após quase uma década de luta do movimento ambientalista global, foi celebrada mundialmente em mais de 25 países. A cidade de Quioto, onde o acordo foi firmado, amanheceu sobrevoada por uma balão. Em Beijing, jovens ativistas discursaram no topo da colina Jingshan Hill, atrás da Cidade Proibida, explicando a necessidade da troca global pelas energias renováveis e eficiência energética. De Moscou a Washington, passando pelas Ilhas Fiji, Bagalore e Helsilque, atividas da rede CAN – Climate Action Network – comemoram o início de uma nova era na proteção climática, onde o caminho no sentido de diminuir as emissões de gases de efeito estufa nos países industrializados e desacelerar o crescimento das emissões de tais gases nos países em desenvolvimento já pode começar a ser traçado efetivamente.

No Brasil, o dia for marcado por protestos bem-humorados na frente dos consulados do Estados Unidos, organizados pelo Grupo de Trabalho de Mudanças de Clima do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para Meio Ambiente e Desenvolvimento (FBOMS) e organizações como a CUT (Central Única dos Trabalhadores), o Greenpeace e o Instituto Vitae Civilis. O governo de George W. Bush, apesar de estar à frente da nação mais poluidora do planeta, não aderiu ao Protocolo. Hoje, o Estados Unidos tem 4% da população mundial e, ao mesmo tempo, é responsável por 25% da poluição global da Terra. O EUA também responder por cerca de 36% das emissões de gases de efeito estufa dos países industrializados.

O ato público contou com uma Arca de Noé, onde foi estendida uma faixa com os dizeres “apesar de vocês, temos Quioto”. A canção de Chico Buarque “Apesar de Você” serviu como trilha sonora para embalar a manifestação. Um personagem vestido de George W. Bush se recusava a abraçar a bóia de Quioto, considerada pelos manifestantes como uma forma de salvar o clima do planeta.

“Quanto mais o Estados Unidos atrasa na sua adesão ao protocolo, mais transfere o ônus do aquecimento global às gerações futuras dos países em desenvolvimento, o que é injusto. Todos os países, ricos e em desenvolvimento, têm responsabilidades. E o que acontece é que os países vão ter que adaptar suas economias por causa disso e o Estados Unidos vai se beneficiar deste processo sem fazer nada”, acredita Rubens Born, diretor executivo do Vitae Civilis – Instituto para o Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz, e um dos coordenadores internacionais da Rede Mundial de Ongs pela Mudança do Clima, que reúne 350 entidades nos cinco continentes.

Em 1992, as Nações Unidas aprovaram a Convenção sobre Mudanças Climáticas, que entrou em vigor em 1994 com a assinatura de 176 países, entre eles o Estados Unidos. Este acordo internacional já trazia objetivos a serem cumpridos pelas nações a fim de diminuir os impactos do efeito estufa no planeta. O artigo 4.1, por exemplo, determinava que, em 2000, o nível de emissão de gases dos países industrializados deveria estar no mesmo nível de 1990. Nenhum país cumpriu este compromisso.

O resultado foi que o mundo não pôde evitar o aumento da temperatura global em 1,3 oC, decorrência das emissões passadas de gases do efeito estufa. Segundo os ambientalistas, se o aumento da temperatura média ultrapassar 2ºC, os impactos nas mudanças climáticas serão catastróficos. Para permanecer abaixo do limite dos 2ºC, os países industrializados deveriam, inclusive, ir além das exigências de Quioto – que fixam uma redução de 5% do nível de emissão para os países industrializados – e reduzi-las em pelo menos 30% dos níveis de 1990 até 2020, e entre 60-80% até 2050.

Carta ao presidente

Uma carta endereçada a George W. Bush foi entregue durante o protesto desta quarta ao cônsul do EUA em São Paulo. Nela, as entidades organizadoras pedem a adesão do país ao Protocolo de Quioto e a conseqüente redução obrigatória de suas emissões de gases do efeito estufa. Para os manifestantes, trata-se de uma posição do governo Bush, e não da sociedade americana como um todo. São muitos os governos locais, ongs e empresas norte-americanas que querem que o país assine o protocolo. Vários já estão, inclusive, implementando programas de adaptação de seu funcionamento para alcançarem as metas estabelecidas pelos 141 países que ratificaram o acordo. ”Sabemos que esta é uma recusa do governo Bush. Por isso dependemos de uma maior mobilização doméstica, dentro do EUA, para pressioná-lo”, afirma Born.

Outro país que se recusa a aderir ao protocolo é a Austrália, que o faz em solidariedade aos americanos, já que, de acordo com seus atuais níveis de emissão de gases, não estaria obrigada a reduzi-los. Neste contexto, indústrias americanas e australianas correm o risco de perderem espaço no mundo globalizado, já que Europa e Japão já vêm colhendo os benefícios financeiros e societários de estarem à frente na corrida para desenvolver tecnologias não agressivas ao clima.

“Se conseguirmos colocar Bush no isolamento, ele vai ter que rever a sua posição. Não poderá ter apenas um olhar economicista e terá que se preocupar com o mundo. Porque, se não houver mundo, não haverá possibilidades de negócios para o Estados Unidos”, disse o secretário-geral da CUT-SP, João de Oliveira. “Não dá para o conjunto dos países ter essa preocupação em suas agendas e o Estados Unidos, alegando questões econômicas, se recusar a fazer este debate com a atenção que ele requer”, aponta.

O Greenpeace comemorou a articulação, iniciada em Porto Alegre no último Fórum Social Mundial, com outras organizações da sociedade civil que não apenas as integrantes do movimento ambientalista – e que resultou nos protestos desta quarta em São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Brasília e Porto Alegre. “Precisamos envolver outros setores, porque os efeitos do aquecimento global já são visíveis no Brasil. E quem sofre são os mais pobres, que tiram seu sustento do mar, dependem das águas das geleiras, vivem nas regiões costeiras, não possuem seguro de suas propriedade agrícolas. Questões como a do clima, da Amazônia e da energia nuclear vão ter que ser lutas de todos se quisermos construir um planeta mais saudável”, conclui Sérgio Dialetachi, coordenador de campanhas do Greenpeace.

Rio de Janeiro

Cerca de cem manifestantes, a maioria representando os movimentos social, sindical e ambientalista, além de parlamentares e estudantes, também ocuparam a calçada em frente ao Consulado dos Estados Unidos no centro do Rio de Janeiro para protestar contra a não-adesão do país ao Protocolo de Quioto. Principal alvo dos manifestantes, o presidente George W. Bush foi acusado em diversos discursos de irresponsabilidade pelo fato de ignorar o esforço dos 141 países signatários do protocolo no sentido de reduzir a emissão de gases nocivos em todo o planeta.

A idéia inicial de se entregar uma carta das entidades ao cônsul dos EUA no Rio acabou não se concretizando. Num prazo de 30 dias, novas assinaturas ao documento serão coletadas pelo gabinete do deputado estadual André do PV. “O EUA não quer aderir ao protocolo porque atualmente só tem olhos para si mesmo. Mas seus dirigentes não enxergam que um desequilíbrio climático acentuado trará danos a eles mais do que a qualquer outro país do mundo”, disse o deputado.

Para saber mais sobre as mobilizações da sociedade civil acerca do Protocolo de Quioto, visite as páginas www.fboms.org.brwww.vitaecivilis.org.brwww.greenpeace.org.br e www.climatenetwork.org.

* colaborou Maurício Thuswohl.

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